sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Vizinhos… mas não irmãos


Um livro é sempre maior do que ele mesmo e diz mais do que tem escrito nas suas páginas. Por isso, tenho sempre alguma dificuldade em resumir livros ou, mais ainda, tentar dizer o que uma encíclica diz.

Na verdade, cada olhar é mais uma releitura e um modo de ver o mundo a partir do que somos e do lugar onde estamos. Claro que não se reduz a uma mera subjectividade mas não podemos pensar que se trata de objectividade pura. Um comentário é sempre um comentário feito por alguém.

Ao ler a última Encíclica de Bento XVI o meu pensamento ficou ‘preso’ à frase: «A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos mas não nos faz irmãos». Estou a citar o nº 19 da encíclica que tem como título: desenvolvimento humano integral na verdade e na caridade (conhecida como Caritas in Veritate). Um texto profundo, politemático, exigente… mas bastante interessante.

Voltemos à frase e perguntemos: ‘O que significa ser vizinho?’, ‘Qual o alcance desta afirmação e qual a distinção entre vizinho e irmão?’, ‘O que tem isso a ver connosco e com a nossa vida concreta?’.

No dicionário encontramos a palavra «vizinho» com o significado: ‘o que está ou mora perto’. Para mim, em oposição à palavra «irmão», significa viver ‘ao lado de’ mas não ‘perto de’; significa ‘conhecer o rosto’ mas ‘não saber o nome’; significa ‘conhecer os hábitos’ mas não ‘as razões’; significa ter ‘relações de conveniência e simpatia’ mas não de ‘compromisso’.

Exagerando e contrapondo os conceitos podemos dizer em relação aos «vizinhos» que nas desgraças ‘temos pena’ mas não ‘compaixão’ (no sentido etimológico de ‘sofrer com’); nas alegrias ‘felicitamos’ mas não nos dispomos a ‘celebrar’; nas discussões ‘toleramos as diferenças’ mas não ‘construímos um horizonte comum’; no quotidiano falamos de ‘banalidades’ mas não ‘partilhamos a vida’ (que corre dentro).

É por isso que fico com a sensação de estamos a ficar demasiado vizinhos uns dos outros… até dos nossos irmãos. Pode parecer estranho ou mesmo exagerado… mas vou sentindo isso, até comigo. Claro que aqui «irmão» é antes de mais os de sangue, mas não só... Pode ser «irmão» entre os vários membros da mesma comunidade cristã, entre os elementos dos nossos grupos, entre os colegas do mesmo presbitério…

Mas acomodar-se e instalar-se nesta distância e nesta ‘não relação’ (existencial) é o caminho dos que desistem, dos ‘fracos’ que não enfrentam as dificuldades com as duas mãos, dos que não acreditam na força de Deus. Talvez, por tudo isto, o desafio desta citação de Bento XVI seja aceitar transformar cada desconhecido num vizinho e, especialmente, cada vizinho num irmão.

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

O quanto a vida tem de semelhante a um vitral.


Um vitral é um painel decorativo, feito de vidros coloridos e transparentes, que habitualmente formam desenhos ou figuras.

Numa pesquisa rápida conclui-se que a origem desta técnica remonta ao Oriente pelo século X. Mas rapidamente chegou ao ocidente como bem testemunha a Catedral de Notre Dame em Paris.

É muito importante perceber que os vitrais, na Igreja, nunca tiveram uma finalidade meramente de adorno ou estético mas essencialmente queriam ser uma catequese. No início tratava-se de uma catequese para o povo iletrado que aprendia muitas passagens bíblicas nesta ‘biblia pauperum’ (isto é, Bíblia dos pobres).

Hoje o vitral continua a ter lugar na arquitectura como uma ‘mensagem’ que se comunica. Trata-se sempre de uma relação que se quer estabelecer. Mas nos vitrais, tal como na vida, há ‘coisas’ que só se vêem bem de dentro.

De facto, só podemos entender a mensagem se nos colocarmos ‘dentro’. Só conseguimos ler (bem) a ‘mensagem’ se aceitamos o desafio da interioridade.

E nestas coisas todos nós corremos o risco de estar, muitas vezes, do lado de fora a tentar interpretar... Todavia, por fora não há beleza. E quando há é muito menor a beleza que se capta quando se vive de ‘dentro’.

Diria que esta atitude será transversal porque podemos aplicar a quase tudo.

Comecemos pela Igreja, vista friamente e por fora, diria que tem pouca beleza… mas quando vivida por dentro enche-nos a ‘alma’ de sentido e dá plenitude aos nossos gestos e às nossas palavras.

Consideremos os outros quando olhados simplesmente pelo que parecem. Fica-nos sempre a sensação de ‘sabor amargo’ e sabe-nos sempre a pouco. Contudo, quando temos a capacidade de ver mais longe e, principalmente, de ver a partir de dentro… tudo se torna diferente.

A força da interioridade é a força da verdade. Nessa verdade tudo se revela profundo. Numa profundidade que manifesta a beleza de cada construção que vemos e que, existencialmente, somos.

Não fiquemos do lado de fora. Entremos dentro do ‘templo’… e contemplemos a mensagem da eternidade.

sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil


Convido-vos para uma viagem cheia de apontamentos, rostos, nomes, projectos… uma viagem de presentes ‘grávidos’ de futuro. Um sonho que cada passado lúcido se esforça para dar à Luz… Precisamos de um novo ‘plantador de naus a haver’ (F. Pessoa).

Olhando o Portugal que somos, continuamos a ser um povo que se julga Camões (E. Lourenço). Invocar um herói que nos dê coesão é um objectivo decente se, disse António Barreto, ‘soubermos resistir à tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências contemporâneas’.

O momento alto do discurso chega (para mim) com as palavras: ‘Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! (…) Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo’ (A. Barreto).


Neste modo de escrever o mundo julgo que continua a fazer sentido considerar-se inteligentemente a possibilidade de Deus (o Amor que é) como uma referência para o exemplo. Não podemos ignorar que essa é a força da mensagem do Evangelho e o testemunho de Cristo. Podemos dizer de muitas maneiras mas a vida é que confirma a força de cada palavra.

Aqui faço três paragens obrigatórias: António Alçada Baptista e João Bénard da Costa e Adriano Moreira. Os dois primeiros fazem parte daquelas ‘mortes de homens que acreditavam totalmente na vida, no homem e em Deus" (John Ford) e Adriano Moreira recebeu o prémio Padre Manuel Antunes do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.


São exemplos e neles o mérito é justo.


Dê cada um de nós exemplo e o mundo fará mais sentido.

sexta-feira, 22 de Maio de 2009

É preciso (re)aprender a sonhar


Como vamos em matéria de «sonhos»?! Como sonham os adultos? Será pecado sonhar? Custa muito ou é fácil? E será que vale a pena?...

Num mundo em que o pensamento se confunde cada vez mais com a estatística e as letras com os números… sonhar ‘parece’ estranho. Sonhar ‘parece’ demasiado infantil para ser levado a sério pelos adultos.

O mundo simpatiza mais com afirmações assertivas encerradas em rostos sérios do que com a simplicidade existencial alimentada pelo humor natural (e inteligente). Somos assim (quase sempre)!

Sonhar é sempre abrir a porta da criatividade e ter a capacidade de se deixar (re)construir na permanente novidade das possibilidades. 

De facto (e apesar de tudo): uns não sonham; outros desconfiam de quem sonha; outros não passam dos sonhos; e outros vão dando vida aos seus sonhos.

Por tudo isto, para mim, sonhar é olhar para além da evidência e ser capaz de passar para além do óbvio. Ser capaz de pensar a realidade que sou e vivo para além do comum…

Mas temos dificuldade em lidar com o que não é ‘normal’ na sociedade… e lidamos mal (habitualmente) com as minorias…

Detesto ideias ‘parvas’ (etimologicamente - pequenas). E o mundo está cheio de ideias pequenas e interesses pequenos… Um mundo construído por ideias ‘parvas’ não me entusiasma.

Não faz sentido, deste modo, que se justificam não pelo valor e pela reflexão mas simplesmente porque ‘sempre foi assim’ ou ‘não há nada a fazer’ ou ‘não somos capazes’…

Contudo, sonhar é importante mas não basta. Não basta dizer que gostava muito de fazer isto ou aquilo… Não basta fazer anúncios de intenções… A vida não se compadece que intenções. Não podemos fazer da vida como se de uma campanha política se tratasse.

Precisamos de muito mais. Precisamos de fazer de cada sonho uma realidade. Por isso, penso que a maior das loucura de que a vida precisa é de ‘gente’ que acredite nos sonhos. Acredite com a força dos gestos. Trata-se sempre de dar vida às ideias.

Temos que nos vestir de entusiasmo, ser criativos e acreditar que temos muito mais força do que imaginamos e somos capazes de muito mais do que pensamos…

Serei louco? Vivo noutro mundo? … Sou um sonhador que acredita que o «sonho continuar a comandar a(lgumas) vidas».

quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Do blogger à televisão (padres apostam na internet)


terça-feira, 21 de Abril de 2009

Eu cá… dou-me bem com a «crise»


Gosto muito de viver… porque em bom rigor é sempre uma experiência única e apaixonante. Tão indizível como gratificante. É bom estar vivo e poder ter consciência disso. Gostava de nunca ter o maior dos pecados: esquecer de agradecer (a todos e especialmente a Deus) o dom da vida (com todas as oportunidades que isso significa).
É no meio dessa intensa experiência que me apetece (re)pensar e (re)dizer a «crise».
Afinal o que é a crise? A quem serve? Quem a inventa? Quem tem poder para pode acabar com ela? Será que a crise ensina alguma coisa a alguém? Será bom ou mau?
Ouvimos muitas vezes esta palavra, quase sempre aplicada à economia (também algumas vezes à ‘saúde’). São muitas as expressões: «Estar em crise», a culpa é da «crise», nunca mais saímos da «crise».
A crise na economia não reside na falta de dinheiro (veja-se a constante e espantosa versão ‘pai-natal’ deste últimos dias do governo). A crise económica reside nos critérios de aplicação do dinheiro que existe (talvez seria mais honesto dizer a falta de vergonha e de transparência nos critérios usados… não preciso dar exemplos porque toda a gente vê notícias ou lê jornais).
O melhor é começar pela própria palavra (pelo sentido etimológico). O melhor (para quem gosta destas coisas como eu) é ir à origem grega que se encontra no verbo ‘krino’ e significa: escolher, distinguir, decidir, discernir, separar, cortar, fazer passar por um julgamento. Desde logo, feita esta explicação, a «crise» já não me parece tão «grande».

De facto, estamos num tempo de «crise»… de necessárias escolhas, precisamos de cortar o que não faz sentido, discernir o que é essencial para poder decidir por aquilo que (verdadeiramente) faz e dá sentido (à vida).
Eu, estranhamente sou um ‘simpatizante’ das ‘crises’. Vejo cada tempo e cada lugar como um constante desafio. E a «crise» é a oportunidade de conscientemente assumir o desafio das escolhas (acertadas e ajustadas). A ‘crise’ põe-me sempre a pensar (melhor). A ‘crise’ entusiasma-me e estimula-me. Faz-me arregaçar mais a mangas (e eu gosto disso).
Parece-me que nos faz melhor a ‘crise’ que a ausência dela. O tempo em que tudo simplesmente acontece é um tempo desinteressante. Começo por isso a desconfiar cada vez mais dos conceitos (muitos importados de uma psicologia essencialmente estatística e meramente descritiva): «auto-realização» e «bem-estar».
Tenho que assumir que não me dou bem com todos… Não me dou bem (qual vizinho mal querido!) com o comodismo, com o «sempre foi assim», com o «é o destino»… Não me dou nada bem com os braços cruzados e com as mãos ‘muito certinhas’ junto ao peito (a indicar o céu… mas a ignorar a terra).
O tempo da crise é (talvez) o melhor para crescer e investir… Crescer e investir em tudo o que faz (mais) sentido. Numa capacidade permanente de «decisão». Temos que aprender a escolher a «melhor parte». Temos que aproveitar a oportunidade para assumir processos opcionais que não se esgotem nas minhas preferências, no meus desejos, do que me atrai, do que parece mais fácil, mais apetecível e mais habitual…
Por isso, em tempo de ‘crise’ constrói algo que vale muito (sem custos mas com compromissos). Não digas «ámen» à vida (que te ‘oferecem’) só a Deus. De facto, como diz inteligentemente Cencini (2009, Alguém te chama. Coimbra: Gráfica 2) «Se eleges como ideal de vida algo que seja minimamente inferior às tuas possibilidades, ou algo facilmente alcançável aos teus meios, ou algo que simplesmente esteja de acordo com as tuas capacidades e a tua medida, não te construirás a ti mesmo, nem o teu futuro, não descobrirás a tua verdade e não conseguirás felicidade alguma, mas antes, estarás simplesmente a condenar-te, a repetir-te e… a clonar-te, alheio a toda a novidade e absorvido no aborrecimento do não sentido, perigosa e frequentemente ante-sala do desespero».

Boa ‘crise’ para todos. Aproveitem (e sejam criativos).

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

De morte em morte chegamos à Vida


O que é a vida senão uma permanente tensão
estar e ser, passado e futuro, morte e vida, cruz e ressurreição…
Falar desta tensão significa falar da passagem (sempre inacabada) da escravidão à liberdade, das seguranças à confiança, da tenda terrestre à habitação eterna, do instante à eternidade.
A morte (enquanto conceito bíblico e teológico) tem sempre a ver com a falta de relação, com a indiferença e com o egoísmo. Quanta morte precisa de acontecer para que a existência se faça Vida?
Só o amor nos torna «imortais»!
Só o amor nos diz que a morte não mata a vida. Foram tantas as vezes que Jesus viu vida onde muitos viram apenas morte (v.g. Filha de Jairo, reanimação de Lázaro). Jesus não enterra ninguém com vida, Ele estava (mais) atento aos sinais vitais… Ele toca nas pessoas, estabelece relação e a vida volta a acontecer.
Sendo a existência um sucessão de espaços e tempos… andamos de morte em morte até que um dia chegamos à Vida. Aquela vida que fala da plenitude. Nós fomos criados para a Vida (não para a morte), para o eterno (não para o provisório), para a Ressurreição (não para a Sexta-Feira Santa).
Mas neste tempo, que é o nosso, quantas pessoas continuamos a crucificar? Quantas pessoas deixamos ‘morrer’ por falta de um abraço e de uma palavra? Quantas pessoas enganamos na hipocrisia com os nossos aplausos (de Domingo de Ramos)? Quantos vão continuar a morrer, como Cristo, de solidão, de ‘descuido’ , de ‘indiferença’? Quantos ficaram por ‘reanimar’ devido à nossa superficialidade, ao nosso desinteresse e ao nosso abandono?Centremo-nos, de novo, no essencial: toda esta história da (minha) Vida Plena nasce da certeza (confirmada): «Jesus está vivo».