
Talvez seja um pormenor, mas hoje quero pensar nisto convosco.
Será que eu posso chegar até Deus? Serve a vida para caminhar até Ele? Será o próprio Deus que vêm até nós? Ou será um ‘a meio caminho’ entre o Céu e a Terra? Onde é que está Deus?
Às vezes num discurso mais teológico dizemos que Deus é Transcendência (normalmente afirmando-se como o contrário da imanência). Ultimamente tenho andado a pensar neste ‘para além de’. E tenho tido algumas dificuldades e sentido até alguma incoerência no ‘discurso’.
Escutando Juan Masiá (professor de Antropologia Filosófica em Tokio nos últimos 30 anos), reflecti sobre dois modos diferentes de colocar esta mesma questão. Uma seria trans-ascendência (uma perspectiva mais ocidental) e outra seria a trans-descendência (uma visão mais oriental).
Se pensamos e vivemos o divino como uma trans-ascendência então Deus é mais uma conquista do Homem. Se colocarmos a questão mais numa perspectiva de trans-descendência então Deus é mais uma descoberta (des-coberta = tirar aquilo que cobre).
Nesta última abordagem Deus aparece como sendo ‘natural’ (enquanto constitutivo), enquanto se voltarmos às categorias da trans-ascendência Deus aparece mais como ‘sobre-natural’ (uma espécie justa-posição ou de imput a posteriori).
Ainda que este raciocínio possa parecer complexo, trata-se simplesmente de pensar (e viver) Deus como Aquele que vem (permanentemente) ao encontro do Homem. De facto, é Deus quem nos ama em primeiro lugar, é Ele quem toma a iniciativa (1 Jo. 4, 10).
Deus, naquilo que a teologia chama amor kenótico, faz-se Homem e vem habitar a história que somos (Jo. 1, 14). Este Deus que toma a iniciativa de habitar connosco é o mesmo que quer ficar connosco até ao fim dos tempos (Mt. 28, 20). Por isso, é que o nome d’Ele é anunciado como o Emanuel – isto é, ‘Deus connosco’ (Mt 1, 23).
Os verbos (as palavras de Deus na boca dos profetas) deram lugar ao Verbo (o próprio Deus comunicado – A Palavra). Verbo esse que se fez humanidade. A este propósito diz a Bíblia: ‘Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho…» (Heb. 1, 1-2).
Todos estes pensamentos podem ser uma boa oportunidade para começar a preparar o nosso coração para o Natal. O tempo de Advento é o tempo de criar condições para que Ele – chegada a hora – possa encontrar lugar para nascer. Eis o verdadeiro desafio da Incarnação. Eis o sentido mais profundo do Natal.

2 comentários:
Gostei do post... nunca tinha pensado na transdescendência assim deste modo... Realmente Ele vem até nós todos os dias, a cada minuto, a cada segundo da nossa vida. Só temos que preparar os caminhos para O receber e deixá-LO entrar nos nossos corações. ( dito assim até parece simples... porque teimo em esquecer-me de o fazer?)
Alguns de nós procuramos a verdadeira identidade numa dimensão espiritual, acolhemos Deus e sentimos que Ele está presente no nosso coração, na nossa vida. Deixemos então que Ele permaneça, que seja a plenitude das evidências.
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