
Voltei aos sonhos (I have a dream – disse um dia M. Luther King). Voltei aos sonhos porque acho que não devemos menosprezar os desejos mais profundos que nos habitam. Como diz Nuno Branco sj, «nunca desconfies nem desistas da beleza e da grandeza dos desejos que passam por ti».
E gostava de re-pensar a minha vida espiritual e a vida da própria Igreja à luz deste ‘acreditar’. Porque, como Igreja, só podemos viver com entusiasmo (se ‘entusiasmo’ – en + teos - quer dizer ‘trazer Deus dentro’ então, ‘tecnicamente’, não é possível pensar a Igreja sem entusiasmo… se não tem Deus dentro não pode ser Igreja – assim fica claro que ‘entusiasmo’ se conjuga sempre com ‘Igreja’).
Contudo, na Igreja que somos, são muitos aqueles que já ‘deixaram de sonhar’, deixaram de acreditar e que desconfiam da beleza dos desejos. São muitos os que se queixam de tudo e de todos, os que desejam sempre ser o que não são e estar onde não estão.
Não tenho dúvidas que a falta de entusiasmo e o desânimo pastoral é sempre sinal de desencontro com o Eterno, é vida que apenas ‘acontece ao lado’, sem a força do Espírito nem a graça da relação. E nestas coisas (como em tantas outras) quando atiramos para o lado e acusamos os outros estamos a tentar tapar ou disfarçar as nossas ‘incapacidades’, os nossos ‘defeitos’, as nossas ‘invejas’ e as nossas ‘carências’.
Tive um sonho e sonhei com uma Igreja diferente. Uma Igreja mais ao jeito de Jesus. Uma Igreja que definitivamente deixasse de querer mobilizar ‘massas’ e ter números, para ser mais ‘fermento’; uma Igreja que não perdesse todo o seu tempo ‘a fazer coisas’, mas que fosse capaz de ‘estabelecer laços’ e ‘vínculos afectivos’; uma Igreja atenta mais atenta aos problemas e às preocupações reais das pessoas; uma Igreja com criatividade e inteligência, com capacidade de ‘traduzir’ para linguagem de hoje o que é e a mensagem que transporta (Bento XVI); uma Igreja feita de pessoas felizes e entusiasmas mesmo conscientes das dificuldades.
Sonhei com uma Igreja sempre a Caminho de Emaús e de Emaús a Jerusalém – do desânimo à alegria, das dúvidas à esperança, da morte à Ressurreição. Sonhei com aquela mesa de Emaús onde tudo acontece (como pode e deve continuar a acontecer na mesa de cada Eucaristia). «Tão simples, tão vulgar, tão óbvio e, contudo – tão diferente! (…) A Eucaristia é o gesto simultaneamente mais comum e mais divino que possamos imaginar» (Nouwen).
Naquela mesa as vidas conjugam-se - o Eterno senta-se à mesa com o humano (o divino e o frágil, o Céu e a Terra sentam-se à mesa – eis o maior dos milagres). Por isso, diz o presbítero em voz baixa enquanto mistura no cálice água e vinho: «Pelo mistério desta água e deste vinho, sejamos participantes da divindade daquele que assumiu a nossa humanidade».
Este milagre justifica todos os sonhos e suportam todos os ideais. Mesmo quando a historia se repete e se faz o mesmo caminho, mesmo quando se regressa aos caminhos de Emaús… mesmo quando Jesus se junta a nós (sem O reconhecermos)… para novos milagres e outros passos. E sempre que O convidamos a entrar (Fica connosco / comigo Senhor) a Vida acontece. E assim a vida acontecendo… até que um dia cansados de tantas viagens e de tantos ‘caminhos errados’ chegamos definitivamente à Casa do Pai onde nos sentaremos no banquete eterno e aí poderemos dizer definitivamente, como Pedro na Transfiguração - «como é bom estarmos aqui».

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