
Diz o poeta: «Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce». Diz o poeta e citam os homens por tudo e por nada. Hoje decidi pensar sobre estas palavras e optei por re-fazer a frase, re-pensar o sentido e aprofundar a complexidade. Fernando Pessoa era um homem interessante principalmente pela aparente simplicidade da escrita e pelo que ‘esconde’ em cada poema. Esta famosa frase faz parte da Segunda Parte da ‘Mensagem’ e tem por título ‘O Infante’. Comecemos…
1. Quando o homem não sonha… Quando a humanidade aceita o quotidiano apenas como uma sucessão do tempo, quando no fim do dia a alegria se resume a ‘dever cumprido’, a ter feito simplesmente o ‘mínimo necessário para…’, ter pensado apenas o ‘comum’, ter visto apenas o ‘óbvio’. Quando o homem não sonha nem homem é… porque ‘ser’ exige dinâmica, futuro, horizonte… exige sonho.
2. Quando o homem sonha o que Deus não quer… É difícil pensar se os sonhos dos homens têm alguma coisa a ver com o que Deus quer. Para isso, era preciso primeiro aprender a ‘lógica de Deus’, apreender a conhecer o que Deus quer. Deus só pode querer aquilo que humaniza e que ‘conduz ao céu’ (à plenitude e à eternidade).
3. Quando Deus sonha o que o homem não quer… Estamos ainda ‘nesse espaço de Deus’ difícil de ‘entrar’ quando não se está habituado a ‘falar com Ele’. Deus sonha. Sonha muito mais (e melhor) do que os homens. Sonha um projecto de felicidade plena para cada um de nós e deseja que o amor se concretize mais nos gestos e nas palavras (concretas) de cada dia. Deus sonha… mesmo quando os homens não querem saber ‘disso’, nem se comprometem com essa ‘lógica de amor’.
4. Quando a obra não nasce… O pior e mais irritante erro da vida é ter medo de errar. Quem não faz nada acerta sempre – mas é o mais inútil dos seres humanos. Estas pessoas simplesmente ocupam espaço e tempo (o que é bem pior do que ser inútil). É fácil ‘fazer de conta’… mas a verdade vem sempre ao de cima (ainda bem!). Muitas obras não nascem porque não há vontade, porque se confunde ‘cauteloso’ com inércia, porque as mangas não andam arregaçadas. Eu gosto de pensar o mundo (em geral) e a Igreja (em particular) pelo que ainda não nasceu (pelo inacabado mistério da incarnação).
5. Quando a obra nasce sem o sonho de Deus e sem o querer dos homens… Há obras assim, sem beleza, sem profundidade, sem alcance. Há muitas correrias, muitos textos, muitas celebrações, muitos sacramentos, muitos gestos e muitas palavras que simplesmente ‘nascem’ (porque sim!). Há demasiadas obras a precisarem de ‘placas’ e de ‘fotografias’ como se disso dependesse a sobrevivência de alguém. Os ‘curricula’ começam a ser cada vez mais desinteressante e valem pelas ‘entre-linhas’.
Que nesta Igreja Deus continue a querer, os homens não desistam de sonham e as obras possam nascer com a beleza, a criatividade e a profundidade de quem tem os olhos ‘abertos’.
De facto, quando não há «visão», quando não somos capazes de discernir, quando não apostamos e arriscamos… o amor não surge, rotina é cansativa e a repetição amarga.
Por isso, continuo a eleger como ‘santos’ as pessoas felizes ‘por dentro’ (não porque a vida seja fácil mas porque Deus é o horizonte)… Os anos passam e eu desconfio cada vez mais dos ‘amargos’, dos ‘mesquinhos’, dos ‘invejosos’, dos ‘repetidores’, dos que são ‘apanhados a copiar’…

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