Terça-feira, 28 de Junho de 2011

Segredos ‘profissionais’ de um padre


É interessante escrever e falar sobre aquilo que não se pode falar – um segredo. Mas o que é um segredo e quanto tempo dura?! Já ouvi dizer (são certamente as más línguas) que um segredo é aquilo que toda a gente sabe mas que ninguém diz. No fundo todos gostam e querem saber ‘segredos’ mas ao mesmo tempo todos dizem – «eu não disse nada».

Recentemente, pediram-me para falar da relação entre o ‘segredo profissional’ e o padre. Achei interessante a provocação e agradeço a oportunidade para retomar a reflexão sobre a importância do ‘segredo’ nas nossas vidas. De facto, há responsabilidades e missões que exigem – sigilo profissional. Os padres estão, nesse mesmo sentido obrigados a «sigilo sacramental» (Código de Direito Canónico, nº 983). Este sigilo é mais do que ‘obrigação de segredo’ e está muito ligado ao sacramento da reconciliação (também conhecido por ‘confissão’ ou ‘penitência’).

Este ‘sigilo sacramental’ tem muita importância porque é a base de confiança de uma ‘relação de ajuda’ quando se partilha a ‘vida interior’ com um padre. Sabemos todos que a ‘verbalização’ é uma dimensão psicológica relevante no equilíbrio afectivo. A possibilidade de ‘me dizer’ e de ‘partilhar o que sinto’ é determinante para a maturidade e para a felicidade. Quando nos fechamos sobre nós mesmos, quando não nos libertamos das nossas prisões, quando não partilhamos os nossos medos, quando não damos voz às nossas angústias… ficamos mais frágeis e damos espaço para que os ‘traumas’ e as ‘depressões’ nos ‘controlem’.

Por isso, um padre é fundamentalmente um ‘ouvinte’, alguém disponível para escutar (num tempo em que parece haver cada vez menos gente disponível para escutar ‘gratuitamente’). Uma escuta que é ‘ajuda’ e muitas vezes uma ‘ajuda sacramental’ (Reconciliação). Eu confesso que passo várias horas do meu dia a ouvir pessoas e a atendê-las no sacramento da reconciliação. Partilho convosco que a pior ofensa que me podem fazer é dizer ‘eu gostava de falar consigo mas anda sempre muito ocupado’. Eu tento pôr as pessoas sempre em primeiro lugar, mesmo que isso signifique, muitas vezes, trabalhar pela noite dentro. Por isso, tenho dificuldade em perceber como é que um padre pode ter pouco trabalho nos dias de hoje – só se tiver horário de atendimento!

No meu trabalho actual, ligado à pastoral do ensino superior, a disponibilidade para escutar, acompanhar e animar a vida sacramental é essencial e determinante para a vida de muitos alunos, professores, investigadores e mesmo funcionários do ensino superior. Muitos estão a ‘redescobrir’ a profundidade e a beleza deste sacramento.

Há vidas difíceis e problemas graves e, por vezes, não é fácil escutar, acompanhar e ajudar a pessoa a encontrar novos caminhos. Essa é a nossa missão. Às vezes, fico a pensar se não podia fazer melhor, escutar melhor ou ter ajudado a encontrar uma solução melhor. Mas adormeço com a serenidade de ter dado o meu máximo. Não me interessam os pecados das pessoas (passado), interessa-me re-contruir o futuro. Importa recordar que o sacramento é um dom que Deus dá (não os padres) a cada pessoa para construir um futuro.

Sobre pecados não se dá exemplos, nem se quer posso dizer que tipo de pecados é mais comum. São vidas, são pessoas… não se pode falar daquilo que é «sigilo». Não há pecados maiores e menores - há faltas de amor (que é o que significa pecado) que têm consequências na minha vida e na vida dos outros.

De facto, eu não me sinto o ‘juiz que julga’, antes o ‘médico que ajuda’ (espiritualmente). Sinto que posso sem mais do que um psicólogo (apesar de ter estudado psicologia do acompanhamento) - sinto que posso ser um instrumento da misericórdia de Deus.

Às vezes o sigilo envolve ‘tensão’ e ‘conflito’ interno. Precisamos de discernir e dizer claramente à pessoa envolvida na ‘confissão’ o que pode haver de injusto. Por isso, é que a ‘penitência’ (isto é, a proposta de mudança de vida) deve ‘atacar’ a questão frontalmente. Se a pessoa mentiu, então terá de repor a verdade (é preciso ver como e quais as consequências). Se a pessoa recusar todas as propostas de ‘futuro’… então não se pode dar absolvição.

Para concluir, gostava de dizer que se um padre revelar um pecado ou fazer alguma indicação próxima que possa pôr em causa a pessoa envolvida incorre numa pena eclesiástica de ‘ex-comunhão’ (Código de Direito Canónico, nº 1388). Por isso, o melhor é continuar a manter o «sigilo sacramental».

0 comentários: