Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

Precisamos de novas parábolas (urgentemente)…


É sempre difícil falar de Deus, da vida e do sentido. É difícil encontrar as palavras certas, acessíveis, profundas e eternas… Jesus usou muitas parábolas, isto é, histórias que inventava para falar de maneira (mais) simples da profundidade e do alcance do Amor (que Deus é e que constitui a Lei do Reino dos Céus).

Para muitos a linguagem teológica e filosófica é como uma língua desconhecida… Isto é mesmo muito sério! Queremos sentar à mesma mesa (especialmente em cada eucaristia) pessoas que não entendem a linguagem, os símbolos, a realidade, os conceitos… alguns nem sabem o que se está a passar (deve ser mais ou menos como uma pessoa que não sabe ler, estar a ver um filme em mandarim com legendas em português).

Muitos não entendem, não percebem e não vêem (por isso) interesse. Essa linguagem pode ser engraçada, pode ser poética… mas no fundo poucos estão interessados e não parece nada existencial… Por isso, muito milagre ‘fica por acontecer’ e muito sacramento ‘perde peso’ (existencial e evangelizador). De facto, aqui a linguagem é mais do que ‘possibilidade’ de comunicação – é ‘lugar teológico enquanto instrumento do amor salvífico de Deus’ (esta última frase é de um grande ‘companheiro de viagem’).

Em toda esta problemática o que me preocupa mais não é a falta de interesse dos ‘ouvintes’ mas a insensibilidade dos ‘oradores’ que falam mesmo quando não está ninguém a ouvir ou mesmo quando ninguém está a perceber. Concentrados no que têm para dizer esquecem a importância de comunicar, de construir ‘pensamento’, de ‘ser instrumento’ para que o ‘milagre’ (na vida de cada um e da comunidade) aconteça.

Na verdade, andam por aí muitos monólogos - eu também me sinto autor de alguns deles. Muitas linguagens ‘fora de tempo’ (por isso, mortas ou pelo menos sem vida e incapazes de dar vida)… Estas linguagens são gestos, são palavras, são modos de olhar o mundo, são modos de fazer pastoral, são perspectivas de ‘nova evangelização’ (que de novo às vezes parecer só ser a palavra ‘nova’).

De facto, falta-nos (muito) pensar. Nós e as nossas instituições. Pensar (bem) é uma óptima solução para vivermos melhor. Convém esclarecer que pensar não significar viver fora do mundo ou não ser prático. Para mim, não há melhor prática do que uma boa teoria. O pior é ‘fazer sem pensar’, porque quem não pensa confunde tudo (confundir é precisamente o sentido da palavra ‘Babel’ – quantas ‘babeis’?). Anda muita confusão por aí, muitas palavras ‘sem peso’ e muitos gestos ‘sem pensamento’.

A linguagem de Deus e do Sentido precisa de novas ‘parábolas’ e de novos exemplos – se queremos ser fiéis ao método (sem perder profundidade)… Sei que exagero mas julgo que Jesus hoje trocaria a vinha, as sementes, a figueira, as ovelhas, os sicómeros, as dracmas… por telemóveis, internet, download, mp3, facebook, bolas de futebol, euros, telescópios, canetas, computadores…

Eis o início daquilo que eu chamaria a necessidade de (re)escrever as parábolas de sempre com a linguagem e os exemplos de hoje – sem ser banal, sem ser facilitador, sem ser simplista. Voltar ao tempo de Jesus (e não ao dos fariseus) palavras simples e profundas, exemplos acessíveis e retirados do quotidiano… Um dia vou escrever algumas dessas parábolas.

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