Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Este pode ser o melhor Natal de Sempre


Sei que o título pode parecer estranho! Sei que muitos passam dificuldades e pensam neste Natal como um dos piores de sempre (penso especialmente nos desempregados, nos doentes e naqueles que perderam um ente querido). Mas também sei que este pode ser, para muitos, um Natal mais ‘natal’.

Um Natal mais ‘natal’ é um Natal com menos ‘coisas’. Se a crise serve para alguma coisa talvez seja para percebermos que não podemos ter tudo. Aliás, a verdadeira lógica do Natal está mais na simplicidade do nascimento de uma criança do que nas prendas de uns ‘Magos’. Por isso, como diz Fernando Ventura, «celebrar o Natal é voltar à essencialidade essencial».

No meio de tantas ‘trocas comerciais’ precisamos de ‘descobrir o natal’, isto é, precisamos de tirar ‘aquilo que cobre’ e que não deixa ver (nem experimentar) o essencial. De facto, o verdadeiro natal acontece para além das luzes, dos anjos, das estrelas… e das canções.

A este propósito, Vasco P. Magalhães, insiste: «Os enfeites de Natal não são de Natal. Bolinhas, fitas, estrelas. A pouco e pouco foram desaparecendo todos os sinais pessoais. Não nasce nem nasceu ninguém. Acabou o presépio e até do Pai Natal, que ainda era alguém, ficaram as renas! Esvaziaram tudo o que era pessoal! Razões ideológicas ou económicas? Certamente as duas ajudam-se! Ficam as "Boas Festas". A quem? Porquê? Onde está o festejado?».

Eis a ‘essencialidade essencial’ - o nascimento de Deus: frágil, pequeno, dependente, inesperado… tão humano que só podia ser divino. Um Deus que se humaniza para que cada um de nós percorra o caminho da eternidade.

Neste sentido, diz a Bíblia: ‘Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho…» (Heb. 1, 1-2). Efectivamente, Deus, que no passado falou por profetas, envia agora o seu próprio Filho. As palavras fazem-se Palavra. Os verbos (as palavras de Deus na boca dos profetas) deram lugar ao Verbo (o próprio Deus comunicado – A Palavra).

Assim se entende o Prólogo de S. João: «O Verbo (em hebraico – ‘dabar’; e em grego ‘logós’) fez-se carne e habitou entre nós» (Jo. 1, 14). Deus faz-se humanidade em cada Natal. Por isso, diz Vitor Gonçalves: «os natais passados deixam-nos lembranças felizes mas o deste ano é que conta»… O deste ano é que conta!

Neste ano a ‘comunicação de Deus’ com a humanidade ganha de novo um rosto e um nome – Jesus (em hebraico diz-se «Yehoshú’a», isto é, ‘Deus Salva’ - talvez hoje disséssemos ‘o que dá sentido pleno à vida’).

Este Deus-emanuel é um «Deus que chega até cada um de nós dentro do nosso possível» (Fernando Ventura). Aqui é que entra o desafio do natal porque às vezes o nosso possível é (só) um espaço menos digno, tantas vezes, desarrumado e ‘atrapalhado’ (há última da hora!).

Neste tempo todos somos sentimos o desafio dos «contornos da fraternidade mais radical, de quem dá o que tem e se dá a Si mesmo em favor dos irmãos» (Virgílio Antunes) porque o «Outro reclama-nos junto dos outros, de corpo inteiro e espírito pleno» (Luís Costa).

Eis as razões!

«Para ser verdade, o Natal tem de ser fundo, pessoal, despojado, interpelador, silencioso, solidário, espiritual. Acorda em nós, Senhor, o desejo de um Natal autêntico» (Tolentino Mendonça).

Santo e Feliz Natal!

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