
Aproveito este espaço para uma reflexão sobre a Justiça. Esta reflexão decorre de um colóquio que recentemente aconteceu no Auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. O colóquio chamou-se «Superar (in)Justiças» e serviu para celebrar os 40 anos do Instituto Universitário Justiça e Paz (21 de Nov. de 1971) e a publicação do documento «A Justiça no Mundo» (24 de Nov. de 1971). Uma iniciativa conjunta da Comissão Diocesana Justiça e Paz e do Instituto Universitário.
Nos dias que correm algumas perguntas surgem com mais força – o que é a Justiça? Como é que hoje se faz justiça? Ainda há justiça? O que significa ser justo? Vale a pena acreditar na Justiça? Quem penaliza os ‘injustos’?...
Não é fácil encontrar uma definição, contudo, sigo de perto a mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2010. Partindo da definição de Ulpiano, no séc III, que dizia – dare cuique suum – isto é, «dar a cada um o que é seu», o Papa coloca a questão essencial - o que é que pertence a cada um, o que é que é este «suum» - este «seu».
De facto, a Justiça é dar a cada um o que é seu – este «seu» são direitos e deveres, mas são também carinho, reconhecimento, amor. Cada ser humano merece toda a dignidade e merece todo o respeito, independentemente da cor, da religião ou do nível social. Foi isso que Jesus nos ensinou. Jesus ensinou-nos a sermos irmãos, a estender a mão ao outro, a fazer comunidade, a partilhar, a alargar os horizontes da dignidade e do reconhecimento do outro.
Deste modo, quando garantimos os direitos da cada ser humano e assumimos os deveres que nos pertencem – não estamos a fazer caridade estamos a fazer justiça. Não basta ensinar a pescar, é preciso garantir o peixe, a cana, e a capacidade de aprender…
Contudo, não podemos deixar de dizer e de denunciar que nem todas as 'justiças' são justas, isto é, há legalidades injustas, imorais e até desumanas. Efectivamente, muito da crise actual a isso se deve – ‘paraísos fiscais’, ‘especulação imobiliária’, ‘atentados à vida humana’ (nomeadamente em princípio e fim de vida)… Há um conjunto alargado de leis que chegam a ser desumanas, que ignoram a realidade de cada um e não promovem as relações e a vida plena.
Somos cristãos, estamos a iniciar mais um Advento, mais do que fazer ‘caridadezinha’ ou ter alguns gestos de solidariedade (que são importantes), precisamos de sonhar um país mais justo, mais criativo, mais empenhado, mais inteligente, mais feliz, mais humano – mais à imagem de Cristo.

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